Seminário do Leite reúne mais de 200 produtores na Expofeira

Evento, realizado no dia 3 de maio, contou com a presença de produtores de leite dos 11 municípios que integram o projeto Pisa

 

O Centro de Eventos, junto à Expodinâmica, na Expofeira, recebeu mais de 200 produtores de leite no dia 3 de maio, última sexta-feira. Eles integram os grupos do projeto Produção Integrada de Sistemas Agropecuários (Pisa), que faz parte do Programa Juntos para Competir, uma ação integrada do setor agropecuário, desenvolvida por Farsul, Senar-RS e Sebrae/RS.

Os produtores de leite, oriundos de 11 municípios da região, prestigiaram o Seminário do Leite, evento que trouxe duas palestras sobre a atividade. A mesa oficial do seminário foi composta pelo presidente da Expofeira, Marcelino Colla; pela gestora de projetos do Sebrae/RS, Fabiane Niedermeyer; pelo gerente regional do Sebrae/RS, Armando Pettinelli, e pelos palestrantes Diórgenes Albring, gestor do Arranjo Produtivo Local (APL) Leite; e Marcelo Irala, médico veterinário e consultor da Sia.

O evento, que teve o apoio do Senar-RS e do Sindicato Rural de Três de Maio, também contou com diversas lideranças locais e regionais. Colla, que também é consultor do Programa Juntos Para Competir, afirmou que estava muito feliz com a grande presença de produtores e lideranças no evento. “A Expofeira mostra as nossas potencialidades e conseguimos, juntos, este trabalho do Programa Juntos Para Competir em 11 municípios da região. Este momento é histórico para a Expofeira e é motivo de enaltecer a cadeia produtiva do leite, que é determinante para a maioria das nossas propriedades rurais. Quem me conhece, sabe do esforço que fazemos para fomentar esta cadeia. Se tirássemos esta cadeia de leite da região, a economia iria sucumbir e parte das propriedades iria desaparecer. Por isso, precisamos ter momentos como este para valorizar estas pessoas que trabalham dia a dia e são criticadas muitas vezes, acordam cedo para tirar o leite e hoje estão aqui para agregar conhecimento.”

O presidente da Expofeira destacou que o seminário foi pensado para trazer debates interessantes e momento de trocas de ideias sobre o programa e sobre os temas de extrema importância.

 

Produtor precisa estar atento à qualidade do leite: novas normativas devem entrar em vigor no fim do mês

O gestor do APL Leite, Diórgenes Albring, iniciou sua fala indagando a plateia sobre qual a importância do leite. Para ele, a cadeia produtiva do leite é uma das mais importantes da região. Albring, que também é produtor de leite, afirmou que o leite é importante porque é um alimento. Além disso, gera renda e desenvolve municípios. “Mas, se não fosse alimento, perderia toda sua importância porque não teríamos para quem vendê-lo”, acrescentou.

Sua fala esteve centrada na qualidade do leite. “Precisamos ter alimento de qualidade. Entendemos que o leite é um alimento e por isso vamos discutir sobre as normativas. A legislação, sancionada em novembro e que deve entrar em vigor em 31 maio, fiscalizará as indústrias. As instruções normativas 76 e 77 serão um divisor de águas para nós, produtores, porque a indústria vai nos cobrar”, alertou.

A IN 76 trata das características e da qualidade do produto na indústria. E na IN 77 são definidos critérios para obtenção de leite de qualidade e seguro ao consumidor, englobando a organização da propriedade, suas instalações e equipamentos, formação e capacitação dos responsáveis pelas tarefas cotidianas, o controle sistemático de mastites, da brucelose e da tuberculose.

Ele explicou que os novos parâmetros impactarão diretamente aos produtores, de imediato, em relação à temperatura do leite. “Temos problemas com este aspecto, pois consta na normativa que este leite precisa estar armazenado em 4ºC; a indústria pode recebê-lo com até 7ºC e esporadicamente a 9ºC. Porém, quase 100% dos resfriadores dos produtores têm problema de temperatura, e o leite está mais quente do que mostra no visor. E os padrões de Contagem de Células Somáticas (CCS) e Contagem Padrão de Placas (CPP), antiga CBT, nos mostram que é assustador que ainda não resolvemos estes problemas aqui.”

Segundo Diórgenes, o produtor, quando diz que o leite produzido na propriedade tem qualidade, quer mais preço. “Mas necessitamos entender que qualidade é sanidade, e sanidade é obrigação do produtor. Precisamos produzir alimento de qualidade. Num futuro próximo, eu não gostaria de perder colegas de profissão por causa disso. Se o produtor de leite não passar na qualidade por três meses consecutivos, a indústria não vai mais carregar o leite. A indústria será fiscalizada, e se nós, produtores, não estivermos dentro das normas, não vamos mais conseguir vender o leite. Estamos muito preocupados com isso.”

Ele relembrou que, no passado, produtores desistiam da atividade leiteira porque ou se aposentavam ou não havia pessoas para trabalhar. Mas, agora, cairão fora porque não oferecem qualidade no leite. “Não queremos assustar ninguém, mas somos realistas com vocês. No nosso programa do APL, de aferição das ordenhadeiras, foi coletado leite de 1.246 vacas para análise, em laboratório, para fazer antibiograma (identificação da molécula agente contaminante de mastite). E apenas 19% deste número de vacas não tinha mamite. Este é um problema que podemos resolver no manejo de ordenha, pois a mamite acontece ou onde a vaca se deita ou onde maneja no úbere. Nós ordenhamos a vaca duas vezes ao dia. Estamos ‘brigando’ por centavos no preço do leite, mas pecamos em processos internos na propriedade que nos fazem perder dinheiro”, avalia.

O palestrante também destacou que, para ter qualidade no leite, é indispensável que a vaca esteja bem nutrida; tenha um local de sombra, com árvores; água nos piquetes; sala de espera e sala de ordenha com condições de higienização.

Sobre a ordenhadeira, Albring disse que, assim como uma colheitadeira que recebe revisão antes da colheita, também precisa de manutenção, pois ‘colhe’ duas vezes ao dia. “E quantas revisões vocês fazem nela por ano?”, perguntou.

Ainda trazendo como exemplo as propriedades que realizaram a aferição de ordenhaderias, Albring revelou que das 203 propriedades, apenas cinco não apresentaram problema com resfriador ou no sistema de ordenha. “Este número é muito alto. Mas afirmo aqui que isso não é culpa do produtor; ele não é negligente; o que falta, em alguns momentos, é conhecimento para acertar alguns processos”, finaliza o gestor do APL Leite.

 

Gestão da atividade é necessária para ‘ganhar mais com o leite’

O médico veterinário Marcelo Irala, consultor do Serviço de Inteligência em Agronegócios (Sia), atende propriedades da região no projeto Pisa e trabalha há mais de 20 anos na atividade leiteira prestando assistência técnica. O tema da palestra dele no seminário foi de como ganhar mais com o leite. “O leite é uma das atividades mais importantes aqui na região, tanto para o produtor como para a sociedade. Não existe receita de como ganhar mais com o leite. Existem várias coisas que podemos fazer para ter mais lucratividade, e alguns aqui, que atendemos no Pisa, já sabem que apontamos alguns caminhos. Precisamos ter em mente sobre o que tira a lucratividade do sistema: vários pontos passam despercebidos. Primeiro: vamos pensar no sistema leiteiro como uma indústria, que é um negócio, e como negócio tem que ser observada a ‘colheita’, onde, muitas vezes, se perde valor por critérios. Vamos pensar como um grande processo de gestão”, iniciou.

Irala lançou aos presentes: “O leite tinha que estar valendo mais? Mas será que temos domínio sobre isso? Não temos. A ‘briga’ por preço deve existir lá fora, e ainda estamos longe de interferir. Mas há, dentro da propriedade, como buscar isso. Dentro da propriedade, está na mão de vocês a forma de ganhar mais com a atividade. E isso passa por eficiência. Temos que ser eficientes, usar os recursos disponíveis de forma cada vez melhor e adequada. E, para ser eficiente, necessariamente, precisamos conhecer e entender todos os processos da produção leiteira”, ressaltou.

O consultor da Sia frisou que a análise do processo necessita de gestão, e que o vê como o novo horizonte a ser alcançado dentro da atividade leiteira. “Atualmente, existem muitos conceitos e técnicas aplicadas nas propriedades. Os produtores participam de palestras, cursos e têm assistência técnica dentro da propriedade, mas eles precisam medir o quanto isso está sendo efetivo.”

“Torna-se de suma importância avaliar onde estou pecando. Primeiramente, falando de nutrição: eu avalio o que meu rebanho precisa comer ou o que as vacas que produzem podem comer? Eu vejo potencial de produção de alimento na propriedade? Condiz com meu rebanho? Eu faço essa avaliação? O produtor de leite precisa ser um excelente produtor de pasto, porque é dali que vem o leite. E se indagar ‘será que estou trabalhando minha área de forma a produzir mais?’ ‘Será que estou investindo a capacidade necessária para produzir bem nesta área que tenho disponível?’”

Irala revela que até 70% do custo de produção pode estar relacionando à alimentação. “Então, se estou produzindo forragem bem, agora preciso pensar se estou equilibrando bem este alimento e se ele é o necessário para aquele animal, além de perceber se os animais estão tendo uma alimentação digna para a produção que estão me retornando.”

O consultor explicou que o produtor pode mexer no custo de produção e planejar para ter ganhos a médio e longo prazo. “O uso de ração, por exemplo, impacta diretamente no custo de produção, e para sabe disso eu preciso medir, saber meu custo.” Exemplos de propriedades atendidas pelo Pisa foram demonstrados por Irala.

Ele também trouxe tópicos sobre gerenciamento da atividade. “Gestão não é só a planilha onde anoto; eu preciso avaliar os recursos (adubo, semente de pastagem, rebanho, produção de lactação, infraestrutura e tempo). O produtor tem que tirar um tempo para gerenciar. Anotar por anotar não é fazer gestão. É necessário ter um tempo para fazer, de fato, a gestão, sentar e analisar os números que conseguiu. E a gestão da atividade de vocês não pode ser terceirizada a outras pessoas, diferente dos outros serviços”, alerta. Concluindo sua explanação, Irala observou que a atividade leiteira requer que os produtores planejem, executem e avaliem.

Colla avaliou o evento como excelente. “Conseguimos trazer produtores dos 11 municípios que integram o projeto Pisa, sendo seis que estão em andamento já no terceiro ano (Vista Gaúcha, Tenente Portela, Nova Candelária, São José do Inhacorá, Alegria e Independência) e cinco que entraram neste ano (Boa Vista do Buricá, Doutor Maurício Cardoso, Alecrim, Santo Cristo e Cândido Godói). “Mais de 200 produtores prestigiaram o seminário, que trouxe duas palestras que vieram ao encontro do que eles imaginavam. Aspectos relevantes que eu, como presidente da feira e consultor do Programa Juntos para Competir, avalio como muito positivos. Os presentes puderam aprender mais e depois das palestras conheceram a feira”, finalizou Colla.

A Expofeira 2019 foi realizada pela Prefeitura de Três de Maio, Câmara de Vereadores, Aci, Sindilojas e Funcap e contou com os patrocinadores oficiais Farmácias São João, Sicredi e Icatu Seguros, Lojas Becker, Zaleski e Fruki Distribuidor de Bebidas, Certhil, Supermercado Benedetti, Corsan, Cotrimaio, Banrisul, Unify, Tarumã, Juarez da Silva Advogados Associados, BRDE, Nutrepampa, Unitec, Fecomércio, Sesc/Senac RS, Sindicato Rural de Três de Maio, Eickhoff Máquinas Agrícolas, Britzke Engenharia, Viação Ouro e Prata  e Baterias Mil Léguas. Foram apoiadores a Fensoja, Expoterneira, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Emater, Setrem, Aproleite e APL Leite Fronteira Noroeste.

 

Texto e fotos: Assessoria de comunicação Unitec

Jaqueline Peripolli | Jornalista MTE 16.999